sexta-feira, 11 de maio de 2007

Charneca em Flor


Charneca em Flor

Enche o meu peito, num encanto mago,

O frémito das coisas dolorosas...

Sob as urzes queimadas nascem rosas...

Nos meus olhos as lágrimas apago...

Anseio!

Asas abertas!

O que trago

Em mim?

Eu oiço bocas silenciosas

Murmurar-me as palavras misteriosas

Que perturbam meu ser como um afago!

E, nesta febre ansiosa que me invade,

Dispo a minha mortalha, o meu bruel,

E já não sou, Amor, Soror Saudade...

Olhos a arder em êxtases de amor,

Boca a saber a sol, a fruto, a mel:

Sou a charneca rude a abrir em flor!

Florbela Espanca

1 comentário:

Anónimo disse...

"há dias em que acordamos e percebemos tudo/o recorte das cidades no horizonte/a distância que há nos caminhos que rasgam os corações/como se fossem cearas de trigo/o nome de certas coisas que só sentimos num abraço

(...)

é então que descobrimos/num desses rostos com que cruzamos o olhar/que a vida podia ser outra/e que seríamos felizes num outro sorriso/se lhe entregássemos inteiros nossos lábios

há dias assim/em que acordamos e percebemos tudo/como se tudo nos estivesse imensamente próximo/como se cada dia nascesse e morresse num abraço/como se a vida coubesse num poema"

in "Quando o Verão Acabar", José Rui Teixeira